Surge o super-herói brasileiro XetruáKyaku, inspirado nos heróis tokusatsu japoneses

2026年 04月 26日
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Uma das obras expostas na mostra individual de João Angelini, “乗客 (passageiro)”, é a máscara, o figurino e os esboços de “XetruáKyaku” (foto/ Massato Asso)

A exposição passageiro do artista brasileiro João Angelini, produzida durante sua residência no Koganecho Artist-in-Residence Program, está em exibição na Site-A Gallery Beneath the Railways. A mostra fica aberta até o dia 6 de maio (quarta-feira, feriado).

João Angelini é um artista visual que atua na cidade de Planaltina, no estado de Goiás, região centro-oeste e interior do Brasil. Após estudar artes visuais na Universidade de Brasília (UnB), trabalhou com produção de vídeo e, por meio desse trabalho, conheceu o grupo de performance Empresa, do qual passou a fazer parte. Em 2007, iniciou sua trajetória como artista, produzindo obras que atravessam múltiplas linguagens: desenho, animação em stop motion, videoarte, objetos, instalações, dry painting e performance.

Em uma artist talk realizada na Embaixada do Brasil em fevereiro deste ano, João Angelini comentou que trabalhar no interior — longe dos grandes centros artísticos e culturais como Rio e São Paulo, ou seja, “nas periferias dos grandes centros” — influencia profundamente sua identidade e sua expressão artística. Ele também afirmou estar curioso para ver como suas experiências no Japão afetariam e se refletiriam nas obras produzidas durante sua estadia.

Quando soube que produziria obras no Japão, João Angelini decidiu criar um trabalho inspirado na cultura japonesa do tokusatsu.

“Tenho 45 anos hoje, mas quando criança assistia muito aos programas japoneses de tokusatsu transmitidos no Brasil — séries como Jaspion, produções de equipes de heróis e Kamen Rider. Eu imitava as poses e sonhava em ser um super-herói. Muitos brasileiros da minha geração cresceram admirando esses heróis do tokusatsu”, conta João Angelini.

O super-herói criado por João recebeu o nome de XetruáKyaku.
XetruáKyaku é apresentado de forma multifacetada: por meio da exibição do figurino, das performances realizadas pelo próprio João vestindo o traje, e de fotografias feitas em locações onde obras de tokusatsu foram filmadas — representando intervenções urbanas realizadas pelo personagem.
“Eu queria visitar pedreiras onde muitas filmagens de tokusatsu foram feitas, mas eram muito distantes, então precisei desistir. Ainda assim, consegui visitar alguns locais de filmagem dentro da cidade de Yokohama.

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Uma das obras expostas na mostra individual de João Angelini, “乗客 (passageiro)”, é a imagem de “XetruáKyaku” (foto/ Massato Asso)

O “Kyaku” de XetruáKyaku vem do japonês 「客」, e está profundamente ligado ao conceito da exposição passageiro: ele é um “viajante que transita entre múltiplos mundos” e também um “estrangeiro que vagueia pela cidade”.

O “Xetruá” de XetruáKyaku é conhecido como uma palavra usada para chamar a entidade Boiadeiro — uma das linhas espirituais da religião Umbanda, que se formou a partir da mistura de Candomblé, tradições indígenas, catolicismo popular e espiritismo.

João Angelini criou XetruáKyaku como uma fusão entre a estrutura narrativa dos heróis japoneses de tokusatsu e elementos culturais de sua terra natal, Goiás.

<Em vez de um “Kamen Rider”, um “herói cavaleiro mascarado”: XetruáKyaku como encarnação dos Curucucus?>

Ao produzir esta obra no Japão, João projetou no personagem a figura tradicional dos Curucucus, muito conhecida em sua região natal.

“Na cidade próxima à minha Planaltina existe um festival onde aparece um personagem chamado Curucucu. Ele tem rosto de boi e chifres enfeitados com flores. Lembrei que, quando criança, eu fazia máscaras de heróis com papel machê feito de jornal. Aqui no Japão, fiz papel machê usando jornais japoneses e criei a máscara do Curucucu. Eu não consigo ler os caracteres japoneses, então uso as letras como elementos visuais no design”, explica João Angelini.

A máscara do Curucucu incorpora elementos inspirados no kumadori do kabuki.

“Essa estética também traz referências da banda brasileira dos anos 1970 Secos & Molhados, que usava maquiagens marcantes. O vocalista Ney Matogrosso se inspirava no kabuki japonês para criar sua maquiagem”, diz João.

Pois bem, o Curucucu — essa figura que usa uma máscara de boi — é um personagem indispensável das Cavalhadas, o evento principal da Festa do Divino Espírito Santo realizada na cidade de Pirenópolis, no estado de Goiás.

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O Curucucu, figura que aparece na tradicional Festa do Divino Espírito Santo em Pirenópolis, Goiás (foto / Eduardo Rodrigu…)

Segundo o antropólogo Felipe Berocan Veiga, profundo conhecedor da história de Pirenópolis, a origem da Festa do Divino Espírito Santo, realizada todos os anos cerca de cinquenta dias após a Páscoa, no período de Pentecostes, é atribuída a diversas tradições: antigos festivais de colheita de matriz judaica, festas europeias de maio, entre outras. Há também a versão segundo a qual, no início do século XIV, a rainha Santa Isabel, que governou Portugal ao lado de Dinis I, teria iniciado as práticas que deram origem à festa. Nos debates sobre essa origem, muitos autores relacionam o tema ao joaquinismo, corrente místico‑teológica medieval proposta por Joachim de Fiore, posteriormente condenada como heresia.

Por conta desse contexto, a festa do Divino em Portugal acabou sendo “reprimida, submetida a séculos de processos inquisitoriais e, por fim, extinta”. Os poucos devotos que restaram teriam fugido para “terras fora do alcance da Igreja Romana”, primeiro para ilhas do Atlântico e, mais tarde, para o Brasil.
Trazida pelos imigrantes, a festa se desenvolveu de forma singular em várias regiões brasileiras, e entre essas versões, a de Pirenópolis é especialmente distinta.

O evento principal, as Cavalhadas, é uma encenação das batalhas medievais entre cristãos e mouros na Península Ibérica. Doze cavaleiros cristãos vestidos de azul e doze cavaleiros mouros vestidos de vermelho realizam, ao longo de três dias a partir de Pentecostes, competições e jogos equestres que seguem a narrativa tradicional.

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João Angelini realizando a performance de “XetruáKyaku”, uma das obras expostas na mostra individual “乗客 (passageiro)” (foto / Massato Asso)

Segundo o fotojornalista Pierre Banoori, que apresentou a figura do Curucucu ao mundo, os Curucucus têm, nos últimos anos, se tornado uma das atrações mais populares da Festa do Divino em Pirenópolis — praticamente protagonistas do evento.
Banoori explica:

“Over the three days of festivities, hundreds if not thousands of people take to the streets on foot and on horseback. Adorning masks, colourful clothes, gloves, and boots, and disguising their voices, they intend to be unidentifiable. Those on horseback also decorate their horses with ribbons, fabric, plants and much more – letting creativity run wild. These are the ‘Mascarados’, or ‘Curucucús’ – due to the raspy sounds they produce. They use their anonymity to forgo all rules, to entertain, and to wreak havoc.”

Durante o festival, os Mascarados (Curucucus) divertem o público usando máscaras e mantendo-se completamente anônimos. Por não poderem ser identificados, tornam-se figuras libertas de qualquer norma social, e seus comportamentos às vezes geram até mesmo certo caos.

A origem dos Mascarados (Curucucus) remonta ao período em que escravizados e pessoas pobres eram proibidos de participar da festa. Para poderem integrar o evento, cobriam-se da cabeça aos pés com roupas e mantos (de modo que a cor da pele não fosse visível), usavam máscaras, mudavam a voz e saíam pelas ruas e pelo festival sem revelar sua identidade. Assim, podiam finalmente se expressar com liberdade.

O pesquisador Cássio Reis Barbosa, que apresentou um estudo sobre os Curucucus em seu Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Desenho Industrial) — Universidade de Brasília, escreve:

“Nas Cavalhadas de Pirenópolis, uma figura típica desta festa, os chamados ‘curucucus’ ou simplesmente ‘mascarados’ surgiram para que o negro, o índio e o pobre pudessem participar desta festa reservada apenas aos brancos ricos. Encobertos dos pés à cabeça, não eram identificados, e assim, só assim, poderiam se manifestar com liberdade.”

Os Mascarados (Curucucus) não aparecem apenas nas ruas: eles também entram a cavalo na arena das Cavalhadas, animando e agitando o público.
Banoori observa:

“Today they still take to the streets but also repeatedly enter the Cavalhodromo, which is the grand arena where the knights perform, to « disrupt » the festivities. They are called on to the field to entertain the public while the knights have a break, but are traditionally playfully stubborn when asked to leave the field – often staying on for much longer than desired.”

Com suas máscaras de boi e capas esvoaçantes, ninguém sabe quem são ou de onde vêm. Surgem do nada, animam a festa e desaparecem sem deixar rastro.

É essa figura — o Curucucu — que está projetada em XetruáKyaku.

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Uma das obras expostas na mostra individual de João Angelini, “乗客 (passageiro)”, é a máscara, o figura de “XetruáKyaku” (foto/ Massato Asso)

<XetruáKyaku, portador do poder espiritual do “Boiadeiro”>

“Ele é um herói, então precisa de poder. Por isso, ele usa um colar com um sino de vaca, tal como o espírito de boi presente na Umbanda”, explica João Angelini.

A palavra “Xetruá”, que dá origem ao nome XetruáKyaku, é conhecida como um chamado utilizado para invocar o espírito Boiadeiro, uma das entidades da religião Umbanda, surgida no Sudeste, e também presente na Jurema Sagrada, religião originária do Nordeste que combina xamanismo indígena com elementos afro‑religiosos, catolicismo e crenças populares.

João Angelini incorporou ao personagem características do Boiadeiro, uma das linhas espirituais cultuadas na Umbanda.

Segundo Francisco Ferreira da Silva, pesquisador da Umbanda no Programa de Pós-graduação em Ciências das Religiões da Universidade Federal da Paraíba (UFPB):

“A Umbanda se define pelas sete linhas espirituais. Em cada uma dessas linhas, sob o comando do orixá correspondente, se perfilaria uma hierarquia e complexa rede de espíritos, e que reproduziriam as qualidades de seu orixá regente, vindo a Terra para trabalhar e assim realizar uma espécie de resgate cármico: uma vez cumprida as suas obrigações neste mundo, através da caridade, poderiam ascender à um plano onde não necessitariam mais reencarnar.”
Cada entidade possui símbolos e características próprias, expressas por gestos, ornamentos, vestimentas e cantos — elementos que as tornam reconhecíveis como “personagens”.
Entre as linhas espirituais da Umbanda, o Boiadeiro é descrito por Silva da seguinte forma:

“Os boiadeiros são espíritos que fazem referência ao homem sertanejo, os peões, vaqueiros que cuidavam e conduziam o gado em fazendas. Suas marcas são o laço e o chapéu.”

“Quando ‘baixam’ no terreiro gritam e fazem gesticulações como se estivessem conduzindo uma boiada.”

“Eles vêm quando há uma energia ‘pesada’ que precisa ser retirada. Sua dança é vigorosa e é acompanhada de um toque rápido dos atabaques.”

A palavra boiadeiro, em português, originalmente não tem relação com a Umbanda: significa simplesmente “vaqueiro”, “condutor de gado”. A entidade espiritual, portanto, representa o espírito desses trabalhadores do sertão.

Acredita‑se que o Boiadeiro possua poderes de cura e de abertura de caminhos. O super‑herói XetruáKyaku, criado por João Angelini, carrega também essa força espiritual.

Enquanto o Curucucu veste uma capa, XetruáKyaku usa, no lugar dela, um manto inspirado na obra de um artista brasileiro de ascendência indígena. Na parte inferior, veste hakama.

“Nos pés, ele usa sandálias Havaianas vermelhas. A partir dos anos 2000, graças ao marketing das empresas, as Havaianas se tornaram um item de moda apreciado até pelas classes altas, mas as versões baratas sempre foram usadas pelo povo e pelas camadas mais pobres. Em protestos de trabalhadores rurais sem terra, elas eram quase um uniforme. Acho que não existe brasileiro que nunca tenha usado um par. Curiosamente, sua origem remete às sandálias japonesas zōri, o que cria mais uma conexão com a cultura japonesa. Por isso, considerei que elas seriam parte ideal do figurino deste personagem”, comenta João Angelini.

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Um dos trabalhos expostos na mostra individual “乗客 (passageiro)” de João Angelini: o sketch de “XetruáKyaku” (foto / Masato Aso)

A explicação ficou longa, mas, se formos apresentar o personagem XetruáKyaku de forma simples, ele poderia ser descrito assim:

Vamos explicar.
A máscara de XetruáKyaku tem como modelo a máscara de boi usada pelos Curucucus, personagens das tradições performáticas do estado de Goiás, no Brasil. Além disso, incorpora também elementos da maquiagem de um artista de rock que fez enorme sucesso no Brasil dos anos 1970, cuja estética foi inspirada no kabuki japonês.
E XetruáKyaku carrega ainda o poder do Boiadeiro, entidade da religião brasileira chamada Umbanda.
Como encarnação tanto do Curucucu quanto do Boiadeiro, XetruáKyaku é um “viajante que transita entre múltiplos mundos” e um “estrangeiro que vagueia pela cidade”.
E, acima de tudo, sua verdadeira identidade jamais pode ser revelada.

Artist: João Angelini「passageiro」
Dates: April 11 (Sat) – May 6 (Wed)
*Closed on: April 27
Hours: 13:30 – 19:00
Venue: Site-A Gallery Beneath the Railways
Organized by: Koganecho Area Management Center
Supported by: Brazil Embassy in Tokyo, Instituto Guimarães Rosa

(Texto:Massato Asso)

<REFERÊNCIAS>

BANOORI, pierre「Curucucús Outcasts to icons」(https://www.pierrebanoori.com/curucucus)

BARBOSA, Cássio Reis「Curucucu: o desenho do mobiliário e a identidade cultural nacional」 (Universidade de Brasília, 2017)

FERREIRA, Sócrates Pereira 「A JUREMA SAGRADA EM JOÃO PESSOA: UM RITUAL EM TRANSIÇÃO」(UFRB,2011)

ORTIZ, Renato「A morte branca do feiticeiro negro: Umbanda, integração de uma religião
numa sociedade de classes」(Vozes,1978)

SILVA,Francisco Ferreira da 「UM OLHAR PEDAGÓGICO SOBRE O CUIDAR DO HUMANO NO CONTEXTO UMBANDISTA」(UFRB,2009)

VEIGA, Felipe Berocan「Essa Festa Não se Acaba, Essa Festa Não Tem Fim: Pirenópolis e a alegria da fé no Divino Espírito Santo」 (Textos do Brasil , 2009)