Filme brasileiro de rito de passagem no sertão, “O Filha da puta”, é exibido no 39º Festival Internacional de Cinema de Tóquio
2026年 10月 31日
Numa pequena cidade do interior do Brasil, o jovem Ismael — que, por ser filho da proprietária de um bordel, é chamado por todos, sem intenção de ofensa, de “Filho da Puta” — vive marcado por esse apelido imposto pela comunidade.
Buscando escapar dessa vida e encontrar o pai que nunca conheceu, Ismael deixa a cidade e inicia uma jornada pelo sertão, onde encontra diferentes pessoas e vive diversas experiências ao longo do caminho.
O filme de animação brasileiro “O Filho da Puta”, dirigido em colaboração por Érica Maradona, Tania Anaya, Otto Guerra e Sávio Leite, é construído de forma a permitir uma leitura em três grandes camadas narrativas.

- O cenário é o sertão (interior / região árida)
A história retratada no filme se passa no estado de Minas Gerais, localizado no interior da região Sudeste do país.
Quando se fala em Minas Gerais, lembram-se, em geral, das igrejas e esculturas barrocas de Ouro Preto — cidade que prosperou como centro do ciclo do ouro entre o final do século XVII e o século XVIII e hoje é Patrimônio Mundial — ou da Capela de São Francisco de Assis, em Belo Horizonte, projetada por Oscar Niemeyer, ambos conhecidos pontos turísticos.
No entanto, Minas Gerais é o quarto maior estado do Brasil, com uma área equivalente a cerca de quatro vezes o território do Japão. Dentro de seus limites encontram-se três dos seis biomas brasileiros: a Mata Atlântica, o Cerrado e a Caatinga. O ambiente natural, assim como os modos de vida e os costumes das populações, variam amplamente de acordo com a região.
O cenário do filme “O Filho da Puta” corresponde ao sertão descrito por João Guimarães Rosa em sua obra-prima Grande Sertão: Veredas. Trata-se de uma área que se estende do norte de Minas Gerais até o interior do Nordeste, pertencente ao bioma da Caatinga — região semiárida caracterizada por cactos e arbustos espinhosos adaptados à seca, cuja paisagem lembra os desertos que serviram de cenário para antigos filmes de faroeste.
As pessoas que vivem ali enfrentam um ambiente natural severo e sobrevivem compartilhando os poucos recursos e oportunidades disponíveis. Em certos momentos, a lógica da “lei do mais forte”, tão presente na natureza, também se impõe nas relações humanas. O protagonista, o jovem chamado de “O Filho da Puta”, precisa confrontar essas situações ao longo de sua jornada pelo sertão. Logo na abertura do filme, na animação dos créditos iniciais, são apresentados os próprios códigos naturais desse sertão.

- Em busca do confronto com o pai desconhecido… uma narrativa de rito de passagem
A estrutura central da narrativa deste filme remonta aos tempos da mitologia grega e aparece em obras como Star Wars e Evangelion: trata-se de uma história de rito de passagem masculino ligada à figura paterna. Aplicando as três etapas do rito de passagem propostas por Van Gennep, o jovem “Filho da Puta” realiza a separação da mãe (o espaço do cotidiano), atravessa a liminaridade / transição ao viajar por um território não cotidiano — o sertão — e, por fim, retorna ao cotidiano por meio da incorporação / reintegração. Por isso, na introdução do filme, a hesitação do protagonista sobre partir ou não é uma etapa necessária da narrativa.
Assim como Obi-Wan Kenobi para Luke Skywalker, o mentor que acompanha e orienta o jovem “O Filho da Puta” em sua jornada — ainda numa fase em que ele “não é nada” — é Bacalhau, um cão falante de três patas. Por isso, quando o protagonista começa a dar sinais de que está superando a fase liminar, a presença de Bacalhau, como ocorre com mentores em tantas narrativas de rito de passagem, cumpre seu ciclo e chega ao fim (como isso acontece, fica para o espectador descobrir).
O encanto das ficções que tratam de ritos de passagem reside na capacidade de, mesmo seguindo um tema básico e clássico, apresentar esse processo de forma dramática, divertida, ou melancólica — sempre filtrada pela visão singular do autor.
Neste filme, o processo de separação é mostrado de maneira cômica; a fase de liminaridade (transição) é apresentada com uma abordagem alegórica; e o clímax da reintegração é sugerido pela paisagem interior do protagonista e pela expressão serena que indica o fim de sua iniciação.
Além disso, ao diferenciar o tratamento visual e narrativo das três partes, o filme torna ainda mais nítida a estrutura do rito de passagem — e a animação se mostra um recurso extremamente eficaz para isso.
A primeira parte (separação), de tom cômico, apresenta o universo do bordel embalado por brega pop, com uma animação leve e dinâmica. A segunda parte (transição / liminaridade) é construída com uma estética alegórica. A terceira parte (reintegração) explora, com o dinamismo próprio da animação, o mundo interior do protagonista — algo difícil de representar em imagem real.
É uma abordagem que só se torna possível porque o filme não é obra de um único diretor, mas sim de quatro artistas trabalhando em conjunto.

- O sertão e a xilogravura da Literatura de Cordel
A segunda parte do filme, correspondente ao processo de transição / liminaridade, é representada de forma alegórica e utiliza ao máximo as imagens das xilogravuras que acompanham a Literatura de Cordel, base estética fundamental do filme. Nesta fase, em que o protagonista necessita vivenciar experiências fora do cotidiano, ele se depara sucessivamente com acontecimentos extraordinários — e a visualidade inspirada no cordel é absolutamente adequada para esse conjunto de eventos não cotidianos.
A Literatura de Cordel é uma forma de literatura popular que tem origem na Europa medieval, chegou a Portugal e, posteriormente, foi levada ao Brasil. Em pequenos folhetos impressos, escritos em versos rimados, são narradas histórias de heróis, aventuras, sátiras, fantasias e diversos outros temas. Segundo Gonçalo Ferreira da Silva, presidente da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, o nome “cordel” teria surgido do costume dos antigos trovadores de pendurar seus folhetos em cordões (cordéis) apoiados no ombro enquanto os vendiam pelas ruas.
Com o avanço dos meios de impressão em massa, como os jornais, o cordel desapareceu na Europa. No Brasil colonial, porém, onde a tecnologia de impressão era limitada, o cordel se consolidou e se enraizou especialmente no Nordeste, tornando-se parte essencial da cultura popular.
A característica mais marcante dos folhetos de cordel é a xilogravura na capa, que apresenta de forma imediata o universo da narrativa. Em muitos casos, o autor dos versos e o autor da xilogravura são pessoas diferentes; às vezes, um único artista produz ambos. De qualquer forma, a qualidade da xilogravura é tão determinante para o sucesso do folheto que os gravadores mais talentosos são lembrados como verdadeiras lendas.
No Nordeste, onde o sertão ocupa grande parte do território interiorano, a Literatura de Cordel frequentemente retrata histórias ambientadas nesse cenário: bandos de cangaceiros que percorriam o sertão, padres que realizavam milagres para salvar populações da seca, entre outras narrativas típicas da região.
A estética da xilogravura — com seus traços rústicos, contornos irregulares e aparência nada suave — confere uma identidade visual única a essas histórias. Para uma animação que transforma um rito de passagem em uma aventura fantástica ambientada no sertão, a imagem da xilogravura do cordel é simplesmente ideal.
Como resultado, o filme “O Filho da Puta” torna-se uma animação profundamente marcada por uma identidade estética e cultural tipicamente brasileira.
A exibição acontece no sábado, 31 de outubro, às 18h30, no TOHO Cinemas Chanter 1, e na segunda-feira, 2 de novembro, às 11h30, também no TOHO Cinemas Chanter 1. Para mais detalhes, consulte o site oficial do festival(https://2026.tiff-jp.net/ja/).
(Texto/Massato Asso)




